Speed no Brasil: a banda que chegou para sacudir o hardcore global

Quando se fala em hardcore nos últimos anos, é impossível não mencionar a Austrália. E dentro desse novo capítulo da cena, o Speed ocupa um lugar de destaque. A banda, que saiu de Sydney para conquistar palcos nos Estados Unidos, Europa e Ásia, faz agora sua estreia na América do Sul, com passagem confirmada pelo NDP Fest II, em São Paulo. Em entrevista exclusiva, o guitarrista Josh Clayton falou sobre o que espera do show, a explosão global do hardcore, o processo criativo das letras e a curiosidade genuína de descobrir o Brasil.
A Austrália no mapa do hardcore mundial
Durante décadas, a cena hardcore australiana viveu à sombra da América do Norte, berço e referência do gênero. O Speed reconhece esse histórico, mas aponta uma virada significativa que teve início, curiosamente, durante a pandemia.
“Crescendo na cena hardcore australiana e idolatrando a cena norte-americana, sempre sentimos que vivíamos um pouco à sombra”, admite Josh. “Até começarmos a turnê, dava pra contar nos dedos as bandas australianas que tinham conseguido sair do país.”
Mas algo mudou. Com o mundo parado e as telas dominando o cotidiano, o público global de hardcore passou a descobrir bandas fora do eixo tradicional. “Acho que as pessoas estão prestando atenção na Ásia, na Europa, na América do Sul agora mais do que nunca. O apetite pelo hardcore finalmente, pela primeira vez em 40 ou 50 anos de gênero, expandiu além das fronteiras da América do Norte.”
O que faz a Austrália se destacar nesse novo cenário? Segundo ele, não é um som específico, mas uma atitude. “É uma comunidade muito unida. Todo mundo se apoia, todo mundo quer ver o gênero crescer. É sobre as pessoas e o trabalho que elas colocam nisso.”

O hardcore nos grandes palcos e o preço disso
O hardcore está maior do que nunca. Festivais como o Coachella já abriram espaço para bandas do gênero, e o público jovem está voltando para as rodas de mosh. Para o Speed, essa expansão é bem-vinda, mas não isenta de tensões.
“É uma faca de dois gumes”, reconhece. “Quando eu estava entrando no hardcore nos anos 2000, ele também era popular, também estava em espaços mais mainstream. Se não fosse assim, acho que eu nunca teria descoberto o gênero.”
No contexto australiano, o crescimento recente é especialmente simbólico. “Nós tínhamos 30 anos e ainda éramos os mais novos da sala nos shows de hardcore, o que é errado. Não deveria ser assim. E agora, pela primeira vez na Austrália, tem garotos de verdade. Tivemos um show em Sydney no fim de semana e metade da sala era menor de 18 anos. Isso é inédito.”
Mas junto com a euforia vem a preocupação com a diluição dos valores que tornaram o hardcore especial. “Fica mais difícil negociar quais são as regras quando mais pessoas de fora se envolvem e tudo se move mais rápido. Há muita ansiedade sobre a mensagem do hardcore sendo diluída.” Ainda assim, a banda mantém a fé: “Não acho que corremos o risco de ver o hardcore mudar drasticamente e perder todo o seu significado. É apenas uma renegociação do que ele é. Com uma nova geração chegando, é uma oportunidade de mudar um pouco, mas preservar o que o torna especial.”

São Paulo: uma estreia com tudo
A vinda ao Brasil é um marco para o Speed e a banda não esconde a empolgação. “É nossa primeira vez no Brasil, então queremos dar às pessoas a melhor experiência possível”, fala Josh sobre o show no NDP Fest II. “Temos algumas faixas do EP novo que lançamos no final do ano passado. Mas, no fim, é um show de hardcore, depende muito de como o público participa. Se todo mundo estiver pulando do palco, no mosh, cantando junto, vai ser incrível pra todo mundo.”
Sobre a cena local, o grupo admite com honestidade que ainda está aprendendo. “Não tenho muito orgulho de dizer isso, mas sou bastante ignorante sobre a cultura brasileira em geral. Preferi esperar para chegar e vivenciar tudo pela primeira vez.” O interesse, porém, é genuíno: “Uma das coisas mais legais de fazer turnê internacionalmente como banda de hardcore é ver como o gênero aparece em diferentes contextos culturais. Foi nossa parte favorita de ir à Ásia, à Europa, e agora vamos fazer isso na América do Sul.”
E claro, há uma curiosidade mais terrena: “Definitivamente animado pra comer comida brasileira em São Paulo.”
Letras que vêm de dentro
A intensidade do Speed não está só no som, está nas palavras. As letras da banda, escritas pelo vocalista Jim, são reconhecidamente carregadas de identidade, resistência e senso de comunidade. E não é por acaso.
“É 100% baseado em experiência pessoal”, reafirma. “A atitude que tentamos colocar no conteúdo lírico é defender a sua identidade, ser confiante em quem você é, ser orgulhoso de quem você é. Essa é, essencialmente, a melhor forma de viver.”
Mas nem tudo é manifesto de força. O Speed também não foge da vulnerabilidade. “Como grupo de amigos, passamos por muitas tragédias juntos. Não fugimos de falar sobre isso nas letras — falamos sobre as lições que aprendemos ao passar por momentos difíceis juntos. Hardcore é sobre ter uma mensagem”
O Speed chega ao Brasil não como mais uma banda estrangeira de passagem, mas como representante de uma geração que reescreveu os limites geográficos do hardcore. O NDP Fest II será, para muitos, o primeiro contato ao vivo com essa energia. E, se o histórico da banda em outros continentes serve de referência, o que vem por aí promete deixar muitas marcas.
