Bring Me The Horizon fez as pazes com Count Your Blessings; e o resultado foi um dos momentos mais especiais da carreira da banda
O álbum que parecia ter ficado no passado voltou ao centro da história do Bring Me The Horizon.

Nada de barricadas separando banda e público. Em vez disso, a tradicional plataforma instalada em frente ao palco pelo Outbreak Festival incentivava stage dives, crowdsurfing e toda a interação que faz parte da identidade do evento. Durante a apresentação, Oliver Sykes também se jogou diversas vezes sobre o público, transformando a noite em uma experiência muito mais próxima dos primeiros anos da banda do que dos shows em arenas que ela costuma fazer atualmente.
O evento foi pensado para recriar a atmosfera dos pequenos clubes onde tudo começou. Com capacidade reduzida e uma proposta completamente diferente das apresentações que hoje levam milhares de pessoas aos festivais ao redor do mundo, o show rapidamente ganhou status de um dos momentos mais especiais da trajetória do Bring Me The Horizon.
Mas a comemoração dos 20 anos de Count Your Blessings vai muito além da nostalgia. Ela representa uma mudança de perspectiva da própria banda em relação ao álbum que marcou o início de tudo.

Antes dos festivais, existiam cinco adolescentes tentando gravar um disco
Quando Count Your Blessings chegou às lojas em 2006, o Bring Me The Horizon estava longe de imaginar o tamanho que alcançaria duas décadas depois.
Na metade dos anos 2000, o deathcore ainda dava seus primeiros passos como movimento. Enquanto bandas ajudavam a consolidar aquele som pesado que misturava influências do death metal e do hardcore, um grupo de adolescentes de Sheffield começava a chamar atenção na cena britânica com uma abordagem caótica, agressiva e sem qualquer preocupação em soar acessível.
Os integrantes tinham pouco mais de 18 anos, praticamente nenhuma experiência em estúdio e um orçamento bastante limitado. A intenção nunca foi criar um álbum que seria discutido vinte anos depois. Eles queriam registrar as músicas que estavam tocando ao vivo para um público que, naquela época, ainda cabia em pequenos clubes espalhados pelo Reino Unido.
Mesmo com todas as limitações, Count Your Blessings acabou se tornando uma peça importante da primeira geração do deathcore britânico e o ponto de partida para uma das trajetórias mais improváveis da música pesada contemporânea.
O disco nunca foi esquecido. Só nunca tinha soado da forma como eles imaginavam.

Foto: Bring Me The Horizon / Ian Enger @ianxenger
Durante muito tempo, muitos fãs acreditaram que o Bring Me The Horizon evitava falar sobre Count Your Blessings por vergonha daquela fase. A mudança de sonoridade ao longo dos anos ajudou a alimentar essa percepção. Afinal, a banda passou por Suicide Season, There Is A Hell…, Sempiternal, That’s The Spirit, amo e, mais recentemente, POST HUMAN: NeX GEn, explorando territórios cada vez mais distantes do deathcore.
Em entrevista ao Blabbermouth, Oliver Sykes desmentiu essa ideia. Segundo o vocalista, a banda “sempre gostou das músicas”, mas nunca sentiu que fez justiça a elas em estúdio. Com pouca experiência e recursos limitados na época, o resultado final ficou distante daquilo que os integrantes imaginavam. Por isso, em vez de simplesmente remasterizar Count Your Blessings para celebrar seus 20 anos, a decisão foi regravá-lo completamente e, finalmente, apresentá-lo da forma como sempre quiseram.
Reaprender a gritar depois de vinte anos
Revisitar Count Your Blessings também trouxe um desafio inesperado.
Em entrevistas recentes, Oliver contou que precisou praticamente reaprender a executar os guturais daquela época. Durante o processo, ouviu gravações antigas, versões a cappella feitas por fãs e passou semanas tentando entender como produzia aqueles vocais quando tinha apenas 19 anos.
Segundo ele, sua técnica mudou completamente ao longo das últimas duas décadas, tornando impossível simplesmente voltar a cantar da mesma forma.
É um detalhe curioso, mas que ajuda a ilustrar o nível de dedicação envolvido no projeto. A ideia nunca foi apenas revisitar músicas antigas. O objetivo era reconstruí-las respeitando a intensidade e a energia que marcaram aquele período da carreira.
A resposta dos fãs mostrou que a espera valeu a pena
A recepção não poderia ter sido melhor.
Os ingressos para a primeira apresentação esgotaram rapidamente, levando ao anúncio de uma segunda data. Nas redes sociais, fãs destacaram justamente o caráter intimista do evento e a oportunidade de vivenciar músicas que raramente aparecem nas apresentações atuais da banda.
Sem grandes efeitos, sem palco gigantesco e sem a distância típica dos festivais, o Bring Me The Horizon entregou uma experiência que parecia saída diretamente dos anos 2000. A imprensa especializada também destacou a escolha de abandonar, por uma noite, a estrutura das arenas para recriar o ambiente em que Count Your Blessings nasceu.

Isso significa uma volta ao deathcore?
Provavelmente não.
Quem acompanha o Bring Me The Horizon sabe que a banda nunca gostou de permanecer no mesmo lugar. Cada álbum abriu novas possibilidades sonoras e ampliou ainda mais o alcance do grupo.
Celebrar Count Your Blessings não significa que o próximo disco seguirá pelo mesmo caminho. O que esse projeto demonstra é algo muito mais interessante: depois de vinte anos explorando novos sons e alcançando públicos completamente diferentes, o Bring Me The Horizon finalmente parece confortável para olhar para o próprio passado sem a necessidade de se afastar dele.
O disco que um dia representou apenas o começo da história hoje é tratado como uma parte fundamental da identidade da banda.

Foto: Bring Me The Horizon / Ian Enger @ianxenger
E o que pode interferir para o Rock in Rio?
É pouco provável que o formato apresentado em Manchester viaje para outros países.
O show foi anunciado como uma celebração única dos 20 anos de Count Your Blessings, pensada especificamente para aquele contexto e para um público reduzido. Ainda assim, o projeto reacendeu o interesse da banda por esse período da carreira.
Isso pode abrir espaço para que algumas músicas apareçam ocasionalmente nas próximas turnês, além da possibilidade de ouvirmos ao vivo “Dehumanized”, faixa inédita apresentada durante as comemorações do aniversário do álbum.
Ainda não existe qualquer confirmação de mudanças significativas na setlist do Rock in Rio. Mas, vinte anos depois de seu lançamento, Count Your Blessings parece ocupar um lugar muito diferente dentro da história do Bring Me The Horizon. Não como uma fase que ficou para trás, mas como um capítulo essencial para entender tudo o que veio depois.
