Varials ressurge das cinzas com o mais pesado e honesto disco de sua carreira

WHERE THE LIGHT LEAVES é uma declaração de sobrevivência moldada pela pressão, pelo luto e pela urgência de uma banda que sabia que não havia segunda chance

Capa: Fearless Records

Há momentos na trajetória de uma banda em que a existência do grupo inteiro parece depender de um único álbum. WHERE THE LIGHT LEAVES, quarto disco do Varials, lançado no último dia  27 de fevereiro, pela Fearless Records, é exatamente esse tipo de registro, um trabalho nascido da necessidade, moldado pela pressão e entregue com a urgência de quem tinha tudo a perder.

O contexto importa. Desde 2013, o Varials construiu uma reputação sólida no underground do metalcore norte-americano. Pain Again (2017) e In Darkness (2019) estabeleceram a banda como uma das forças mais interessantes da cena, combinando heaviness beatdown com atmosferas etéreas e elementos de metal alternativo. Mas a saída do vocalista original em 2020 e o posterior Scars For You To Remember (2022), que diluiu o som em elementos eletrônicos genéricos e refrões desconexos, custaram caro em termos de credibilidade. A banda precisava reagir.

A resposta veio na forma de Skyler Conder, novo vocalista, e de um disco que soa como uma declaração de sobrevivência. O resultado é um álbum que, desde o primeiro segundo, deixa claro que não há espaço para concessões. A faixa-título começa como uma cacofonia etérea de sintetizadores ambientes e raspagens de guitarra, mas em menos de um minuto desmorona em um breakdown com guitarras tão desafinadas que batem como caminhões, acompanhadas de uma batida pesada enquanto o vocal explode sobre a destruição. 

A produção de Josh Schroeder merece destaque especial. O grave ao longo das faixas trafega na fronteira do território distorcido nos momentos certos; o baixo é absurdamente espesso, e os blast beats fazem o Varials abrir espaço para seções com a força de um tiro de canhão.  O trabalho de Schroeder aqui rouba o fôlego de maneiras que nenhum dos discos anteriores conseguiu alcançar. 

Dentre as treze faixas do disco, há momentos de agressividade cirúrgica e outros de surpreendente complexidade atmosférica. “Conscious Collapse” sai do portão com um groove agressivo antes de submeter o ouvinte a desacelerações dramáticas, blast beats e breakdowns com grave amplificado, tudo nessa ordem.  Já “The Hurt Chamber” se destaca como uma fera mais lenta no ponto central do álbum, enfatizando vocais limpos sem comprometer o feeling cru da música, quando combinada com riffs mecanizados e grooves melódicos, resulta em uma das faixas mais eficazes do disco. 

Versão em vinil exclusiva para a tour (Foto: midvessel)

“[wouldyoufollowme]” soa como a trilha sonora icônica de Silent Hill 2: teclados desafinados e reverberados, bateria coberta de reverb, criando um terreno atmosférico inquietante.  E “Romance II”, que ecoa a faixa “Romance” do álbum In Darkness (2019), encontra um equilíbrio perfeito entre raiva e delicadeza, assumindo a forma de uma balada com refrões enérgicos. 

Where The Light Leaves encontra o Varials novamente em terreno sólido. Moldado pelo luto, pela frustração e pela sobrevivência, toda a sufocação e violência que percorrem o disco não constroem um registro sobre glamourizar o colapso: é sobre suportá-lo. Sobre encontrar um caminho através dele. 
O Varials não reinventou a roda. Mas pegou uma roda que estava prestes a ser descartada, a refizeram com raiva, suor e a urgência de quem sabe que não há segunda chance. Para os fãs do metal pesado e honesto, Where The Light Leaves é um dos lançamentos mais contundentes de 2026.