Garage Fuzz celebra 35 anos entre legado, resistência e novos caminhos no hardcore brasileiro

Banda santista prepara EP inédito, nova fase com Victor Franciscon no vocal e reforça a essência que a transformou em referência nacional

Foto: Andinho

Poucas bandas brasileiras conseguem atravessar gerações mantendo relevância, identidade e conexão real com sua cena. O Garage Fuzz é uma dessas exceções. Em 2026, o grupo de Santos celebra 35 anos de trajetória consolidado como um dos nomes mais importantes do hardcore melódico nacional, carregando uma história marcada por reinvenção, pioneirismo, fidelidade às raízes, além de uma discografia coesa recheada de clássicos. O Downstage bateu um papo com o baixista da banda, Fabrício de Souza sobre identidade, estrada, passado, presente e futuro.

Nascida em Santos, em 1991, a banda atravessou gerações, expandiu fronteiras e manteve viva uma identidade construída entre o punk rock, o hardcore melódico e influências que fugiam do convencional para a época.

Segundo Fabrício de Souza, baixista e integrante histórico do grupo, a sonoridade do Garage Fuzz surgiu justamente deste encontro de referências. “Quando a banda começou, a gente já tava curtindo muito guitar band, o grunge da época, Mudhoney, Dinosaur Jr., o próprio Nirvana”, relembra. Ao mesmo tempo, os integrantes carregavam vivências ligadas ao punk e ao hardcore tradicional.

Foto: Lucas Piruka

O resultado dessa fusão foi determinante para a trajetória da banda. “Ali a gente ajudou a montar esse estilo Garage, que é um som hardcore, punk rock, mas que continuou com essa pegada das guitar bands. Por isso a banda sempre teve muito detalhe de guitarra”, afirma.

Identidade própria desde o começo

Para Fabrício, essa mistura de influências se tornou a marca registrada do grupo. “Isso aí é uma das coisas que tem a digital do Garage Fuzz. A influência das guitar bands, do grunge lá do início, e depois também a nossa influência do hardcore e do punk rock.”

Sem enfrentar resistência do público, a transição sonora aconteceu de forma natural. “Não teve nenhuma resistência. Foi uma transição muito normal e natural da banda, e foi muito bem aceita.”

Roadrunner e o salto nacional

O grande impulso veio em 1994, quando o Garage Fuzz assinou contrato com a Roadrunner Records, gravadora européia. Para Fabrício, aquele momento estabeleceu bases sólidas para a banda. “Na realidade foi um impulso inicial que criou o alicerce da banda que a gente usa até hoje”, destaca.

Foto: Andinho

Com o lançamento do álbum Relax In Your Favorite Chair, o grupo passou a ter distribuição nacional em grandes lojas e magazines. Além disso, viveu um feito inédito para a cena. “Eles bancaram nossa primeira turnê nacional, que hoje em dia veio a ser a primeira turnê nacional de uma banda de hardcore melódico no Brasil bancada por uma gravadora.”

A exposição também ganhou força com o clipe de “When All The Things”, exibido em alta rotação na MTV da época.

Repercussão internacional

A fase Roadrunner também abriu portas fora do país. Segundo Fabrício, o Garage Fuzz foi uma das bandas brasileiras com melhor retorno internacional dentro do catálogo da gravadora. “O Garage Fuzz foi a banda que mais lançou em mais países da Europa. A gente saiu em vários países, incluindo Inglaterra, Alemanha e Itália.”

Esse alcance abriu caminho para novos lançamentos independentes posteriormente nos Estados Unidos e na Europa.

Foto: Lucas Piruka

Santos como celeiro musical

Ao falar sobre as origens, Fabrício destaca a importância de Santos para a construção do DNA da banda. Para ele, a cidade sempre foi um verdadeiro celeiro para a música pesada e alternativa. Além do histórico musical, ele acredita que o estilo de vida santista ajudou no surgimento de bandas. “É uma cidade praiana, com qualidade de vida boa. O pessoal se enfiava dentro das salas de ensaio para fazer música.”

Hoje, ele vê a cena local renovada e forte novamente. “Tem surgido uma banda mais legal que a outra. A cena tá muito forte.”, afirma.

Nova fase com Victor Franciscon no vocal

Outro marco recente foi a entrada de Victor Franciscon, ex-vocalista da banda Bullet Bane, no lugar de Farofa, vocalista histórico da banda. Fabrício conta que o processo foi construído com respeito e naturalidade. “Foi uma coisa super amigável, super bem feita, bem resolvida.”, conta.

Victor já era admirado por Fabrício há anos, e rapidamente correspondeu às expectativas. “Ele correspondeu 100%, tanto na hora de tirar as músicas do Garage quanto na hora de compor.”

A aceitação do público também chamou atenção. “Poucas vezes vi um vocalista ser substituído e ser tão bem aceito, sem rejeição nenhuma.”

Foto: Lucas Piruka

Cinco músicas inéditas e o legado para a nova geração 

Para marcar os 35 anos, o Garage Fuzz prepara o lançamento de um EP com cinco faixas inéditas, além de uma faixa bônus surpresa. O material contará com apoio da gravadora OddSounds. “A gente vai gravar essas cinco músicas inéditas que é muito Garage Fuzz, sem tirar nem pôr”, afirma Fabrício. Além do lançamento, a banda prepara uma intensa agenda de shows pelo Brasil.

Depois de mais de três décadas de estrada, Fabrício deixa claro o que espera transmitir para quem está chegando agora ao hardcore. Mais do que profissionalização e estrutura, ele acredita que a essência precisa seguir viva. “Nunca se esqueça da essência do estilo, do hardcore, o questionamento da sociedade, empoderar as minorias e questionar o que a gente acha que tá errado.”

Aos 35 anos, o Garage Fuzz segue em movimento: fiel ao passado, conectado ao presente e ainda necessário para o futuro.