A Stranger to You: Loathe trás um universo novo em forma de álbum

Imagem: Reprodução / SharpTone Records

Maturidade, refinamento, crescimento, são coisas que bandas adquirem com o passar dos anos, em uma cena moldada pela cultura de algoritmos, valorizando lançamentos constantes, presença diária em redes sociais e o foco em singles, o Loathe optou por ter calma, para poder criar algo que nunca foi feito antes em seu novo trabalho, A Stranger to You, terceiro álbum que vem após cinco anos de seu último lançamento.

A banda nunca parou. Ao longo dessa espera, diversas turnês ao redor do mundo aconteceram com a participação do grupo, ao mesmo tempo que o seu segundo álbum, I Let it In and It Took Everything criava tendências e abria horizontes novos no metalcore. Comparações com gigantes como Deftones ou Meshuggah eram cada vez mais frequentes, um fandom cada vez maior, e o impacto de terem criado um clássico moderno mas também levantado uma grande dúvida: O que vem agora?

Após três singles, um em 2025, dois em 2026, o Loathe finalmente revela seu projeto, ambicioso por natureza, experimental, ruidoso e delicado, quase como um recomeço pra banda, mas sem se descaracterizar, abraçando um futuro diferente do esperado pelos seus fãs.

O álbum começa com “Entrance”, uma faixa de introdução, ambiente, calma, embalada por uma poesia falada, quase em formato de rap, do artista bucki sugar. seu texto sobre sobreviver a pressão, enfrentar golias e se levantar, serve como uma comemoração pela vitória de uma banda do underground ter ido tão longe, mas também uma demonstração dos obstáculos no caminho.

Em “Block of Flats”, começamos com um timbre estridente de guitarra, retrô, moderno, estranho porém bem colocado, o guitarrista Erik Bickerstaffe abre a canção em um tom reconfortante, até entrarmos em uma sonoridade caótica, dançante, com a potência vocal de Kadeem France, nos trazendo a dualidade característica da banda. Em uma faixa contrastante de força bruta e uma confiança leve. A música conta com feat do Static Dress, outro grande nome da cena atualmente que também lançou um álbum esse ano.

Imagem: Loathe via Instagram

Seguimos para “Fortress Down”, constante, animada, com o ritmo muito similar ao de Screaming, uma das maiores músicas da carreira da banda. se permitindo baixar suas defesas, mesmo com o medo de decepcionar.

O cenário vira de ponta cabeça em “Gemini”, a faixa mais pesada do álbum, que retrata uma pessoa perdida, sem esperanças, mas disposta a fugir desse lugar estranho. a mistura de EDM com Metal cria um cenário amedrontador e claustrofóbico, no qual as paredes cada vez mais fecham e o som se torna cada vez mais denso e distorcido, sem tempo a perder, fugindo no frio batida a batida nesse cenário pesado muito por causa do trabalho do baterista, Sean Radcliffe.

Após o interlúdio eletrônico incômodo de “Nothing Like the Knife”, seguimos para a faixa “Harder To Pretend”, uma faixa surpreendentemente ritmada, novamente com uma sonoridade mais voltada pro Indie Rock. uma conversa entre duas pessoas sobre finalizar algo, propositalmente vago, que se torna cada vez mais difícil de mentir a respeito. a faixa se encerra com um ritmo de soul music, transicionando ate a próxima música.

O interlúdio “اثينا (Athena)”, além de ser uma homenagem a filha do baixista da banda, Feisal El-Khazragi, bucki sugar retorna e canaliza as forças novamente com sua poesia em uma ambientação surrealista, gerando a expectativa para a próxima faixa, a potente “Revenant” no qual enfrentamos um fantasma do passado, ferido e pessimista, abordando a dualidade de quem cai sob a pressão de estar tão perto do sol e quem é capaz de se transformar.

A faixa narra essa pressão como uma forma de se tornar mais forte, tudo isso com a ambientação de uma música pesada, rápida, que acaba lenta e intensa, retornando a dualidade trazida pelo espectro, os corpos que se transformam, e outros que se vão.

“The Way it Breaks” trás uma calmaria depois do confronto, enquanto uma pessoa olha pra outra, a tentando convencer de admitir sua derrota e curar as feridas de seu coração, ambos sofrem pelo mesmo motivo, novamente, vago. A sonoridade de Post Rock, Indie, com uma inspiração psicodélica embala a música com um arranjo flutuante e leve, cantado pelo baixista como uma exceção às outras faixas.

“Meet my Maker” começa com uma bateria sampleada, experimentando texturas, acordes, aproveitando os espaços vazios na composição para preencher em outros momentos, experimental misturando indie, stoner, pop, prog em uma faixa improvável com um final em um tempo quebrado, incerto, previa a próxima música, Fangs, canção mais voltada a uma sonoridade Stoner, oitentista, sem perder a potência sonora da banda, em meio a um baixo de RnB que rapidamente leva a riffs pesados, nosso protagonista percebe que pode tentar de novo de outro jeito, a mistura de violões, sintetizadores, corais, abre as portas para mais uma sonoridade entre tantas que ouvimos durante esse LP.

Mas se tratando de inesperado, a faixa ‘’The Ladder’’, feat com Jordan Rakei é a vencedora de longe. uma balada clássica, que parece flutuar do passado, leve, constante, com uma sonoridade feliz porém melancólica, por mais diferente que seja, é capaz de manter a atmosfera do álbum, nos levando para outro novo lugar

‘’Gifted Every Strength’’ solidifica todos os elementos em uma só faixa. Peso, ritmo, ambiência, textura, progressivo e clássico, numa faixa que tenta reunir todas as forças para enfrentar um mundo tão pessimista em meio ao medo

‘’No Stranger to you’’ encerra o álbum com a sonoridade clássica da banda, essa mistura de shoegaze com metal, o Nu-Gaze. Otimista, brilhante, olhando para o futuro de peito aberto, quase como quem se reapresenta a um amigo após anos, mas as coisas seguem como eram, mesmo sendo diferentes.

VEREDITO

Em muitos momentos do álbum houve um tema vago, distante, indireto nas letras, o que é aberto a interpretação, mas que pode ser lido como uma mensagem metalinguística, o álbum falando sobre o álbum, sobre a banda, sobre anos de espera, da pressão do sucesso, de repetir seus feitos novamente, agora em outra fase de suas vidas, o grupo consegue novamente criar algo impensável.

Na contramão da sonoridade moderna, estéril do resto do metalcore, abraçar um som mais sujo, menos definido, arranjos diferentes, complexos, carregados de sintetizadores, violões, guitarras, baixos, bateria, e seja mais o que for, e ser capaz de tornar coesa uma massa tão grande de sons, atmosferas, referências, gêneros musicais e experiências de vida dos últimos cinco anos parecia ser impossível mas foi feito, com excelência.

Foto: Steve Gullick

A possibilidade de mudar, ser diferente, sem perder sua identidade, criar e respeitar sua criação, no seu tempo, é o que torna Erik Bickerstaffe, Kadeem France, Feisal El-Khazragi e Sean Radcliffe igualmente importantes nesse projeto criado por amigos de uma vida, que mais uma vez, reinventou seu gênero musical, nos entregando esse presente e começando aqui mais uma espera pelo futuro, só que dessa vez, saindo apenas da melancolia e trazendo uma visão mais otimista do que nos aguarda.

Para Fãs de: Deftones, Meshuggah, Static Dress