Chococorn and the Sugarcanes encontra novos caminhos em Todos os Cães Merecem o Céu

Entre distância, estrada e novas sonoridades, banda transforma amadurecimento em música em novo álbum

Foto: Bianca Souza

Em 2024, a Chococorn and the Sugarcanes ganhou o cenário underground brasileiro com o lançamento de Siamês. Munidos do espírito de faça-você-mesmo, o quarteto guiou o ouvinte pelo cotidiano, as amizades e as desilusões típicas de jovens do interior de São Paulo.

Com esse primeiro trabalho, eles rodaram mais de 14 mil quilômetros e se apresentaram em 12 estados do país. Morando no asfalto, eles conheceram melhor a si mesmos e entre si, além de encontrar centenas de pessoas que ouviam o seu som. Na estrada mesmo, começaram a escrever o que viria a ser seu segundo álbum.

Foto: Bianca Souza

Todos Os Cães Merecem o Céu é esse registro sobre saudade e descobertas. Lançado em 9 de março de 2026, ele marca a nova fase do grupo, que se sente mais maduro e livre para conquistar novas sonoridades. 

Entre o Caminhão de Mudança e Algumas Vias e Outras Vias Maiores

A Chococorn and The Sugarcanes é como as nossas bandas preferidas: amigos de infância que cresceram juntos e se divertem fazendo música. 

Ainda muito jovens, o quarteto encaixou como uma luva na nova cena que surgia pós-pandemia, e logo se tornou um dos grandes nomes do emo caipira, uma versão do midwest emo com sotaque brasileiro. O primeiro álbum, Siamês, é muito pautado por essa sonoridade. 

Foto: Bianca Souza

“Eu tenho uma sensação, assim, de que a gente foi parar no emo, não só porque a gente pensou em fazer emo, mas porque começaram a enxergar como emo e a gente abraçou muito o negócio”, conta Ale.

“Então, a ideia da gente criar o emo caipira foi, tipo, ‘ó, é, a gente não tá se rotulando por padrões externos. Se for colocar um rótulo na gente, a gente é a gente, e a gente é isso daqui”.

Em Todos os Cães Merecem o Céu, essa faceta volta a aparecer em faixas excelentes, como “Seja gentil” e “Esperança, Ambição”, que remetem ao som do Sunny Day Real Estate, e “Mosh pits and bare chests”, que toma um caminho de bandas como oso oso e TWIABP&IANLATD.

Apesar de fazer parte dessa cena, o gosto musical dos quatro nunca se resumiu a isso: vai desde músicas que escutavam com os pais e passa por indie rock, rock alternativo, metal, música brasileira. Nesse disco, eles passaram a explorar muito mais esse leque de possibilidades.

“Eu sinto um pouco que a gente voltou, assim, para o indie rock, que foi uma coisa que uniu bastante nós quatro no começo,” conta Pipe, que explica que a banda preferiu não ter amarras na hora de compor, e arremata, “vamos fazer o que a gente gosta e foda-se”.

“A gente voltou a pensar um pouco, tipo, no Strokes, no Radiohead, que eram coisas que introduziram a gente para a música, e até há coisas mais novas que vieram depois do emo, que nem o Porter Robinson e Los Hermanos”, completa Ale.

O resultado é um disco bastante diversificado, um prato cheio para quem curte todos esses tipos de som  — ou para quem confia no bom trabalho que a Choco é capaz de fazer.

Sobre isso, ele continua reflete: “Eu acho que um dos prazeres da criação é você juntar as coisas que você gosta. Eu acho que muita inovação também surgiu na combinação de coisas”.

Para quem já acompanha o grupo, o que mais salta aos ouvidos é o maior uso de sintetizadores e eletrônicos, algo que o grupo fez questão de implementar. Em “Glória Niñar” e “Até Os Ossos”, esses elementos são destaque e trazem um frescor, que lembra Porter Robinson e Motion City Soundtrack.

O mesmo vale para a brasilidade, que se apresenta de outra maneira. Basta ouvir “30 dias de Carnaval”, que mistura samba, ska e ótimas melodias vocais, ou “Agito e Propaganda”, que lembra o primeiro álbum dos Los Hermanos — e deve inspirar os momentos mais agitados dos shows juntamente com “A Vida de Messi”

Para dar unidade a todas essas influências, a produção do álbum é assinada por Alexandre “Capilé” Zampieri e Gabriel Zander, além de Pedro Guerreiro, da própria banda. 

“A gente tinha uma outra perspectiva de como as harmonias funcionavam, de como elas eram feitas e gravadas, e foi meio que um masterclass de entender como funciona, como executar nos shows, toda a seleção de timbres, esse lado mais da apresentação estética”, conta Pietro; e Pedro completa, “O Capilé, ele fez um papel de produtor meio conselheiro”.

A estrada e a composição

O processo de composição de Todos os Cães Merecem o Céu foi bem diferente do álbum anterior, e em muito se deu na estrada. 

Foto: Bianca Souza

Conforme conta Ale, “a gente estava, cada um morando em uma cidade, se encontrava no fim de semana pra viajar pra uma cidade que não era nossa, para conhecer outras pessoas e estar com outra galera, então, a distância se tornou parte da nossa vida”

“Esse disco é produto direto do que a gente viveu depois do Siamês. A gente caiu na estrada, viajou pra 12 estados e passamos muito tempo juntos”, explica Pipe “A distância se tornou parte da nossa vida: entre nós quatro, que nos separamos e distância das coisas que a gente vivia.” 

De fato, muitas das letras refletem esse momento, e apesar da melancolia característica do trabalho da Chococorn, o afastamento aqui também é carregado de esperança e bons sentimentos, como em “Palavra de Amigo” e “Esperança, Ambição”.

“Entre Algumas Vias e Outras Vias Maiores”, por sua vez, é uma espécie de ode à realização do sonho dos amigos de caírem na estrada. 

Mas esse não é o único assunto que permeia o disco. Em “Glória Niñar”, Pipe escreve sobre o luto pela perda de um bichinho; “30 dias de Carnaval” e “A Vida de Messi” falam sobre Carnaval e futebol, respectivamente.

E para quem ama as músicas mais antigas da banda, também há espaço para as tradicionais canções sobre sentimento e desilusão, como em “Seja Gentil”, “Água até o Teto” e “Fogo na Chácara Klabin”.

Mesmo com o bom humor de praxe, fica nítido o amadurecimento do quarteto nas composições, que demonstram novos caminhos sem perder a assinatura da Choco. Esse é, certamente, um dos pontos altos desse trabalho.

Foto: Bianca Souza

As lições e o futuro

O nome Todos os Cães Merecem o Céu faz referência a uma animação de 1989. Na trama, o cãozinho Charlie é assassinado por um ex-amigo, e ao chegar ao Céu, consegue enganar os anjinhos para voltar para a Terra, onde quer buscar vingança. 

No nosso planeta, ele conhece Ana Maria, uma garotinha que fala com os animais e que lhe ensina a importância de amar e ser amado.

De certa forma, o nome do álbum também diz muito sobre esse momento. Assim como Charlie, a banda já viveu um primeiro ciclo com Siamês, e se prepara novamente para cair na estrada — e todas as novas lições que isso pode trazer.

Foto: Bianca Souza

“Eu enxergo que rolou muito amadurecimento musical nesse disco. A gente tá tendo a oportunidade de conhecer o mundo de novo, e, principalmente, de trabalhar com pessoas muito talentosas”, conta Pipe. “Se pra mim, tem uma lição que eu tiro desse disco, é de que fazer arte é muito da hora, e é isso que eu quero fazer pra vida”

Pietro continua: “E eu espero descobrir muito mais coisas do que a gente já conseguiu descobrir na turnê do Siamês. Eu sempre quero que a gente esteja se desafiando, e eu quero conhecer novas formas da gente se desafiar.”

“Espero que esse álbum novo a gente consiga alcançar mais lugares, para conhecer mais pessoas e conectar mais pessoas com as coisas que a gente faz, mas também que a gente se divirta muito no processo, como a gente fez no Siamês”, diz Alê, ao que Pedro completa, “essa é a parada mesmo, é o que a gente queria fazer desde criança, e finalmente tá dando certo, e é muito massa”.
Em Todos os Cães Merecem o Céu, a Chococorn and The Sugarcanes segue honrando a luta, a vitória e a chance de ser ruim.