Carta de Adeus é uma síntese do que há de melhor na Fresno
Novo álbum é composto por excelentes canções de rock e baladas, com flertes ao som radiofônico dos anos 80 e 90

Há quase cinco anos, a Fresno vive um novo auge em sua carreira. A banda, que esteve entre as mais tocadas do país nos anos 2000, conseguiu encontrar a melhor forma de se conectar com os fãs e manter-se em crescente relevância.
De lá para cá, o trio passou por diversos lançamentos, experimentações, colaborações com grandes artistas e shows em casas lotadas e grandes festivais.
Em meio a esse momento, o trio lança seu 11º álbum, com 10 faixas inéditas, resgatando o que sempre fez de melhor. Carta de Adeus é feito de grandes canções de rock e baladas radiofônicas, com arranjos certeiros e letras que se conectam com o público.
Em entrevista exclusiva ao Downstage, Lucas e Vavo falaram sobre o processo de criação do novo trabalho, a relação com o público, seu lugar enquanto pioneiros na cena e as expectativas para esse novo ciclo.
Os discos não nascem com destino definido
Na filosofia, existe uma forma bem conhecida de explicar a dialética, geralmente resumida como tese–antítese–síntese. De um jeito simplificado, é quando você apresenta uma ideia, coloca ela em confronto com um contraponto e, a partir disso, chega a uma síntese que aproveita o que faz sentido dos dois lados, mas reorganiza tudo de um jeito mais elaborado.
Esse é um bom caminho para compreender Carta de Adeus. Esse é o terceiro álbum da fase pós–pandêmica, e também o terceiro com a formação em trio.

Vou Ter Que Me Virar, o primeiro dessa trilogia, reflete muito sobre a pandemia, com letras alternando entre a desesperança e o bom humor; enquanto isso, o Eu Nunca Fui Embora representa o reencontro com um novo auge da banda, e traz grandes participações como Pabllo Vittar, Chitãozinho & Xororó e Nx Zero.
Se em ambos esses trabalhos, a Fresno propõe uma série de elementos e descobertas, Carta de Adeus chega como uma possível síntese desse período. Fruto já de um certo distanciamento e reflexão, ele vem trazer o que melhor funcionou.
“Teve uma vontade artística nossa de fazer um disco que não tivesse muita invenção de moda”, esclarece Lucas. “A gente procurou chegar nos elementos mais básicos do que seria a Fresno e tentou fazer o disco crescer a partir disso, e não a partir de uma experimentação”.
Não à toa, é um disco mais direto que os anteriores, tanto em sonoridade quanto em temática. “Eu Não Vou Deixar Você Morrer”, “Sóbria” e “Se Tudo o Que Você Quer” se utilizam do peso instrumental e das temáticas mais soturnas, que lembram grandes momentos de álbuns anteriores do grupo.
Também há muito lugar para baladas ao passo em que “Tentar de Novo e de Novo” e “Logo Agora que Meu Mundo Girou”, que resgatam o sentimentalismo presente em toda a discografia anterior. “Se Foi Tão Fácil”, por sua vez, tem uma melodia radiofônica típica de arranjadores como Lincoln Olivetti e Arnaldo Saccomani
“Os discos não nascem com destino definido. No começo, as músicas tinham uma cara ainda com um pouco de resquício dessa vibe Eu Nunca Fui Embora, mas aí foram entrando um pouco de elementos dos anos 80, de uns equipamentos que a gente foi comprando”, explica Lucas, “aí o disco acabou ganhando umas outras músicas mais soturnas, que trouxeram esse balanço”.
Há até mesmo uma reinterpretação de “Pessoa”, hit de de Dalto e Cláudio Rabello que ficou famoso na voz de Marina Lima em 1993. É a primeira versão a estar em um disco oficial da banda.
“É um sucesso que, na nossa boca, vira uma música nossa”, comenta Lucas, e Vavo completa: “quando a gente mandou as músicas para o nosso mixador, ele falou (sem saber) que essa era a favorita dele, justo a que a gente não escreveu [risos]”.
Canções que precisam de tempo para existir
Desde que os fãs receberam o link de acesso até o dia do lançamento, uma das faixas mais comentadas pelos fãs foi “O Cantor e o Taxista”, cujo trecho final foi divulgado no teaser do álbum.
“Essa é uma música que a gente faz sabendo que ela vai bater nesse fã mais clássico da Fresno, que entende esse tipo de música”, comenta Lucas.
De fato, se fosse necessário explicar o estilo da Fresno a alguém que não conhecesse, essa seria uma ótima porta de entrada. Uma canção com diferentes momentos e climas, daquelas que os fãs amam cantar a plenos pulmões (como cantaram no show de lançamento).
“Quando a gente fez “Stonehenge”, que foi a primeira música assim, eu fiquei tentando repetir isso mil vezes, mas isso não é possível”, reflete Lucas, “até porque até essa energia e até essa melancolia, essas explosões elas precisam acontecer, mas não vão acontecer dez vezes num disco”.
A composição demorou anos para chegar à sua versão final. Um trecho da letra foi postado pelo vocalista em um texto de blog em 2013, ainda misturado a pedaços de outras músicas.
“O disco, do jeito que ele foi concebido, precisa fazer toda aquela viagem para que aquela música exista daquela forma”, ele conclui. “É por isso que eu acredito muito no formato do álbum”.
O lançamento como encontro com os fãs
Os primeiros a conhecerem Carta de Adeus foram os fãs. A Fresno fez o show de lançamento tocando o novo disco na íntegra (e mais um set inteiro de hits). Para que o público aprendesse as músicas novas, disponibilizaram um link exclusivo com antecedência para quem comprou o ingresso.
“Eu sei que vocês passaram o link pra todo mundo”, brincou Lucas durante o show. “A gente queria que vocês se sentissem na comunidade Discografias do Orkut”.

Diga-se a verdade, há pelo menos cinco lançamentos, há uma parte dos fãs que pede que a banda toque o disco integralmente. Agora, eles já se sentem preparados para entregar isso ao público da melhor maneira.
“O primeiro disco que a gente fez entendendo o que é um álbum hoje em dia foi o Sua Alegria Foi Cancelada”, comenta Lucas. “A gente começou a tomar mais as rédeas da criatividade e entender que um álbum não é apenas fazer 10 músicas, é como como a gente vai empacotar e mostrar isso”.
O resultado não poderia ser melhor. Um grande show, com uma banda no ápice de sua performance em um Espaço Unimed abarrotado cantando cada vírgula inclusive das músicas novas.
Mesmo se aproximando de 30 anos de carreira, eles contam que ainda se sentem inquietos para o lançamento das faixas e do show de estreia. “O nervosismo fica diluído em todas as situações”, diz Vavo, que explica “não é bem um nervosismo, é ansiedade em saber o que as pessoas vão achar.”
“Toda música surge de uma segurança de que aquilo que você está fazendo é incrível, mas quando você vai empacotando aquilo, às vezes essa animação vai passando e vem a apreensão daquela música entrar em contato com as pessoas” Lucas reflete.
E conclui: “Lançar um álbum é tu fazer a pessoa se identificar com aquilo sem entender que processo te levou àquilo. Se eu não ficar nervoso, é porque tá errado”.
Um ponto de encontro real, humano e tátil
Fortalecendo ainda mais essa relação com seu público, antes de colocar o novo álbum no mundo, a Fresno inaugurou sua própria loja na Galeria do Rock.
O local é um patrimônio do rock brasileiro e essencial para a cena emo, já que era um ponto de encontro para os adolescentes nos anos 2000 e serviu como palco para a fatídica matéria do Fantástico, em 2006.
Relembrando, Lucas brinca: “A verdade é que era para a gente ter uma loja na Galeria do Rock há 20 anos, né?”
A ideia é muito inspirada pela Third Man Records, de Jack White, que transforma a banda em um espaço físico “real, humano e tátil”, assim como a música da Fresno. “É um ponto de encontro para os fãs em momentos em que a gente tem um lançamento, uma coisa grande para dizer”, explica.
Estrategicamente, a inauguração foi marcada para a semana dos shows do My Chemical Romance em São Paulo, e atraiu fãs de todo o Brasil que estavam na cidade para assistir à banda gringa.
“No dia em que a gente inaugurou, quem mais faturou foram os tatuadores”, brinca Vavo, fazendo referência a estúdios de tatuagem que expuseram flash tattoos relacionados ao grupo, e diz que espera que se torne um movimento. “Eu acho que tem várias outras bandas que teriam uma dimensão e peso para também ter sua loja lá.”
É mais uma das empreitadas em que a Fresno assume lugar de banda precursora dentro do movimento. Lucas reflete sobre: “Diz muito sobre um lugar nosso no próprio rock. Não de tamanho, mas talvez até de determinados pioneirismos.”
Uma carta endereçada ao maior número de pessoas possível
“Agora é focar na turnê e fazer isso chegar ao maior número de pessoas possível”, conta Vavo sobre os planos da Fresno. Ele esclarece os planos da banda para esse ciclo:
“Uma coisa que a gente já tem feito dos últimos lançamentos pra cá é sempre dar aquela experiência que a pessoa vai numa casa de show boa, que ela vai curtir do início ao fim, que vai ter uma boa estrutura e vai escutar nossas músicas com um som perfeito.”
A Fresno já tem shows marcados em grandes capitais, e deve anunciar mais datas da turnê em breve.
“A ideia é fazer com que as pessoas escutem esse álbum ao vivo, e paralelamente, escutem no streaming e mandem pros amigos. E compareçam à nossa lojinha, porque ela é feita especialmente pros nossos fãs”.
“Obviamente durante a turnê ali por baixo dos panos sem ninguém ficar sabendo, vão começar as feitas outras músicas para o futuro 12º álbum”, ele brinca. “Mas isso a galera só descobre depois”.
Por ora, basta que Carta de Adeus chegue onde merece, e ele tem tudo para isso. É um disco feito por uma banda que aprendeu, ao longo de quase três décadas, exatamente quem são seus fãs e o que quer dizer. E que, desta vez, escolheu dizer da forma mais direta possível — como uma boa carta deve ser.
Carta de Adeus, novo álbum da Fresno, está disponível em todas as plataformas de streaming em 24 de abril de 2026..
