“BRIO” é um milagre: o retorno do Rancore, maturidade e o disco que encerra uma lacuna

Em entrevista ao Downstage, vocalista relembra o desgaste do auge, o hiato de mais de uma década e como o novo álbum transforma vivências pessoais, filosofia e caos em um dos trabalhos mais ambiciosos da carreira do Rancore

Foto: Tauana Sofia

Quinze anos depois de Seiva, disco que levou o Rancore para um novo patamar, a banda retorna não apenas com material inédito, mas com um trabalho que soa como reencontro, acerto de contas e reconstrução ao mesmo tempo.

Em entrevista ao Downstage, Teco Martins (vocal) falou sobre o hiato da banda, o desgaste psicológico vivido no auge, as experiências acumuladas ao longo da última década e o processo intenso de construção de um disco que ele descreve como “um milagre”.

Foto: Tauana Sofia

“Eu sinto que a gente cresceu mais do que o nosso psicológico dava conta”, relembra Teco sobre a era Seiva. “O Rancore ficou muito exposto naquela época. A gente tava na MTV o tempo inteiro, fazendo muita imprensa, muito show, e ao mesmo tempo nossa vida ainda era muito underground. A gente carregava equipamento, fazia corre de palco, tudo.”

O impacto daquela exposição acabou sendo maior do que a banda conseguia administrar emocionalmente. Teco conta que desenvolveu uma espécie de fobia social durante o período, sentindo-se constantemente observado em espaços públicos. Enquanto isso, alguns integrantes começaram a perceber que talvez não quisessem mais seguir naquele ritmo.

“A amizade nunca desgastou, mas a vontade de estar dentro da banda desgastou em alguns membros. E quando isso aconteceu, a gente entendeu que não fazia sentido substituir ninguém. O Rancore somos nós cinco.”

A vida depois do fim 

A decisão de encerrar as atividades em 2013 veio sem brigas, mas deixou marcas profundas. Depois de um mês com uma turnê de despedida em 2014, cada integrante seguiu caminhos diferentes: teve mudança para a Alemanha, para os Estados Unidos, vida no campo, novos trabalhos e projetos musicais completamente distintos entre si. Ainda assim, o Rancore continuava presente na vida dos cinco, como aquele pensamento no fundo da mente que você não consegue ignorar. E se eles tivessem continuado? O que poderia ter sido do Rancore

Foto: Tauana Sofia

“Mesmo longe da banda, a gente nunca ficou longe da música”, explica.

Tivemos o #VoltaRancore em 2017 com um show no Hangar 110, mas o retorno começou a tomar forma mesmo só em 2023. Inicialmente pensado como mais um show único de reencontro, no festival Oxigênio, o projeto cresceu rapidamente: um show, depois três, que viraram cinco, sete, até desembocar em uma sequência de cerca de 40 shows, incluindo Lollapalooza e apresentações lotadas.

“No meio desse reencontro, a gente percebeu que precisava fazer um disco novo.”

Se o espírito da banda continua o mesmo, Teco acredita que o que mudou foi a consciência artística e técnica do grupo. Ao ser perguntado se achava que o hiato trouxe mais coragem criativa ao quinteto, ele responde: 

“A coragem é a mesma. A gente nunca entrou em estúdio pensando em repetir fórmula ou fazer algo porque deu certo antes. Isso seria inadmissível dentro da banda. […] Mas hoje a gente entende muito mais de música, de gravação, de mixagem, de estética sonora. Antes, a gente entrava no estúdio praticamente só com as músicas.”

À procura de um milagre 

Esse amadurecimento aparece diretamente em BRIO, um álbum que expande ainda mais as possibilidades sonoras do Rancore. O disco atravessa hardcore, pós-hardcore, música experimental, noise, elementos eletrônicos e momentos quase espirituais (não no sentido religioso da coisa) sem perder identidade. E isso não aconteceu de maneira simples.

Segundo Teco, um dos maiores desafios do processo foi justamente encontrar um ponto de intersecção possível entre os cinco integrantes que, após tantos anos vivendo em universos distintos e distantes, passaram a consumir e produzir coisas tão diferentes.

“Foi desesperador às vezes”, admite, rindo. “O Candinho tava fazendo noise pop experimental na Alemanha, o Gulão virou produtor de música eletrônica em Nova York, eu fui pro mato fazer música ritualística, o Alê continuou no punk rock e o Caggegi no grindcore. […] Às vezes quatro gostavam de uma ideia e um não gostava. Então encontrar algo que os cinco gostassem parecia procurar um milagre.”

Talvez por isso BRIO soe tão difícil de categorizar. O álbum evita referências óbvias e constrói uma identidade própria a partir justamente dessa colisão de experiências.

“Eu realmente sinto que a gente encontrou um som que só o Rancore poderia fazer.”, conclui Teco. 

As letras transmitem ainda mais essa sensação de expansão. Durante o processo de composição, Teco transformou a escrita de BRIO quase numa rotina obsessiva de estudo. Ele conta que voltou a ler muito enquanto escrevia o disco, tentando construir um vocabulário simbólico que acompanhasse a complexidade emocional do momento vivido pela banda.

Hermes Trismegisto, Caibalion, Taoismo, Dostoiévski, Gabriel García Márquez, textos de psicanálise lacaniana, física quântica e teoria do caos aparecem como peças de uma mesma engrenagem criativa na cabeça de Teco Martins. Em outro contexto, a soma dessas referências poderia facilmente soar excessiva. No caso de BRIO, elas parecem funcionar mais como ferramentas para organizar o caos interno acumulado ao longo dos anos.

Teco fala com entusiasmo genuíno sobre conceitos matemáticos e físicos enquanto tenta explicar a construção lírica do disco. Em determinado momento da entrevista, ele cita colapso da função de onda, vácuo quântico, fractais e efeito borboleta com a mesma naturalidade com que fala sobre espiritualidade ou relações humanas.

Foto: Nicolas Camargo

“Eu queria criar algo com muitas camadas. Tem gente que ouviu o disco e falou: ‘Ah, ele tá jogando palavras aleatórias’. Mas não tem nada aleatório ali. Existe um fio conduzindo tudo, só que ele exige interpretação, exige que a pessoa cave um pouco mais.”

Ao mesmo tempo, existe uma preocupação muito clara em não transformar BRIO num exercício hermético. Teco parece interessado justamente nesse equilíbrio entre profundidade e comunicação.

“Eu queria que alguém pudesse ouvir no raso e simplesmente sentir uma energia boa. Mas se quiser mergulhar mais fundo, as conexões estão ali.”

Essa busca por múltiplas leituras conversa diretamente com a própria estrutura emocional do álbum. As referências filosóficas e científicas aparecem o tempo inteiro, mas nunca desconectadas da experiência humana concreta.

Quando fala sobre releituras de Os Irmãos Karamázov ou Cem Anos de Solidão durante o processo, Teco não trata esses livros como símbolos de erudição, mas como formas de refinar percepção emocional e linguagem. A mesma coisa acontece com os estudos sobre Taoismo e hermetismo, que entram no disco como maneiras de pensar dualidade, transformação, caos e permanência.

No fim, porém, ele próprio relativiza todo esse arsenal de referências ao afirmar que “as maiores influências continuam sendo as pessoas. São nossos amores, dores, filhos, relações, conflitos. Isso pesa muito mais do que qualquer livro.”

Um acerto de contas com o próprio auge

Ao longo da última década, os integrantes atravessaram perdas, recomeços, mudanças radicais e a própria chegada da paternidade. Dos cinco membros da banda, três se tornaram pais durante o hiato, relembra Teco.

“São 25 anos de história acumulados nesse disco”, diz Teco. “O Rancore acabou no auge, então ficou uma lacuna dentro da gente durante muito tempo. E esse álbum meio que fecha isso.”

Foto: Tauana Sofia

Quando fala sobre BRIO, Teco frequentemente recorre à ideia de encerramento, mas não de maneira melancólica. Existe uma sensação clara de paz e de renovação que se transmite a cada faixa e que também ficou muito clara na entrevista, conforme nos encaminhávamos para o fim do papo. 

“Se acabasse tudo agora, eu já estaria feliz por esse disco existir”, afirma. “Eu amo todos os trabalhos do Rancore, mas sinto que esse é o disco que melhor representa quem a gente é. Se eu tivesse que mostrar um álbum pros meus filhos entenderem o que foi o Rancore, seria esse.”

O colapso da função de onda 

Mesmo sem ter sido pensado estrategicamente para dialogar com diferentes gerações, BRIO acabou ampliando ainda mais o alcance da banda. Nos shows recentes, o público vai de crianças a fãs que acompanham o grupo desde os primeiros anos. E mais do que números, o que impressiona Teco é a pluralidade desse público:

“A coisa mais bonita do show do Rancore é ver gente completamente diferente celebrando junta. Tem crente, ateu, gente mais velha, gente nova, rico, pobre, todo mundo ali se abraçando. Isso é muito forte.”. 

Agora, com BRIO finalmente lançado, o desejo da banda é simples: tocar o máximo possível e honrar cada pessoa que escolhe estar presente.

Foto: Tauana Sofia

“A pessoa faz um esforço enorme pra ir num show. Compra ingresso, pega ônibus, trem, fila… Então isso é sagrado pra gente”, diz.

Ao mesmo tempo, Teco também tenta equilibrar a intensidade do retorno da banda com os outros papéis que ocupa fora dos palcos.

“O Rancore exige 100% da gente. Mas eu também sou pai, marido, professor. Então minha expectativa é conseguir honrar todas essas partes da minha vida ao mesmo tempo.”

E é nessa capacidade de transformar tudo isso em movimento que BRIO encontre sua força maior. Entre caos e maturidade, peso e delicadeza, passado e futuro, o Rancore retorna sem tentar reviver uma versão antiga de si mesmo.