Fresno transforma a Fundição Progresso em uma catarse coletiva com a turnê de “Carta de Adeus”

Banda une passado e presente em show intenso e prova que segue relevante ao transformar despedidas em combustível criativo

Foto: Tadeu Goulart / Downstage

Poucas bandas brasileiras sobreviveram ao tempo sem virar caricatura de si mesmas. A Fresno parece ter entendido desde cedo que permanecer relevante exige desconforto, reinvenção e coragem para a cada lançamento garantir a continuidade do seu legado junto aos fãs. No último sábado (23/5), o grupo gaúcho levou essa ideia ao extremo na Fundição Progresso, tradicional casa de shows do Rio de Janeiro, em um dos espetáculos mais intensos e emocionalmente honestos de sua trajetória recente. A apresentação ocorreu dias após a banda bater o recorde de maior público de toda sua carreira, com 75 mil pessoas no Parque da Redenção em Porto Alegre, no sábado (16/5).

Foto: Tadeu Goulart

Ao contrário do que a alcunha sugere, a estreia carioca da turnê de Carta de Adeus passou longe de um clima de despedida. Pelo contrário. O novo álbum soa como uma banda que decidiu encarar os próprios fantasmas sem medo de parecer dramática. E talvez seja justamente isso que mantém a Fresno tão conectada a diferentes gerações.

Lucas Silveira, Vavo e Guerra seguem tentando produzir algo vivo, imperfeito e humano.  O vocalista explicou recentemente que o álbum surgiu de músicas antigas inacabadas, ideias esquecidas e sentimentos acumulados ao longo dos anos. É menos uma despedida definitiva e mais um reencontro com versões antigas de si mesmos.

E isso fica evidente ao vivo.

Foto: Tadeu Goulart

A decisão de tocar o novo álbum integralmente logo no início do show poderia ter esfriado uma plateia menos envolvida. Mas aconteceu justamente o contrário. A Fundição cantava as músicas como se já fossem clássicos estabelecidos. Foi um daqueles raros momentos em que se percebe que uma banda ainda consegue transformar lançamentos recentes em memória afetiva instantânea.

Outro trunfo que confirma a relevância do grupo é a capacidade de criar um sentimento de comunidade que confia e abraça uns aos outros sem questionar já que estão unidos por um sentimento comum. Horas antes do show, a Fresno convocou os fãs para a entrada da Fundição para uma surpresa. O grupo presente recebeu uma serenata de Lucas da sacada da Fundição com músicas que não seriam tocadas no show como “Onde Está”, “Stonehenge” e “Quando eu Caí”. 

Foto: Tadeu Goulart

O grande mérito da Fresno hoje talvez esteja em entender que maturidade não significa abandonar intensidade e não largar a mão de quem esteve com ela o tempo todo. Carta de Adeus é um disco cru, que acredito ter inspirado a banda a levar a performance ao vivo  para outra dimensão. Um dos bons exemplos foi como a Fresno explorou sem medo o vídeo ao vivo, direto do palco, transmitido no telão pela talentosíssima Larissa Queiroz (@larissasav). E a banda fez questão de, ao final do show, derramar elogios a toda equipe que os acompanha estrada afora. 

Nessa apresentação, em especial, talvez nenhum outro espaço no Rio fizesse tanto sentido quanto a Fundição Progresso. Lucas Silveira chegou a comentar no palco que nunca tinha visto a casa tão cheia para a banda. Não parecia exagero. O vocalista lembrou, no meio do show, que foi lá que eles lançaram o disco “A Sinfonia de Tudo Que Há”, há cerca de dez anos, e confirmou que estarão de volta à Cidade Maravilhosa, no dia 7 de agosto, para tocar o disco na íntegra no festival Doce Maravilha. 

Mas o mais interessante é perceber como a Fresno conseguiu escapar da armadilha da nostalgia confortável. O trio não parece interessado em virar patrimônio afetivo congelado no tempo. Existe um desejo evidente de continuar criando, experimentando e até provocando o próprio público. Em tempos de música feita para algoritmos e refrões descartáveis de quinze segundos, Carta de Adeus soa quase como um manifesto a favor do processo artístico humano falho, artesanal e emocionalmente bagunçado.

Foto: Tadeu Goulart

O show, dividido em dois atos, apresentou todo o disco novo e, na sequência, clássicos de todas as eras da Fresno cantados a plenos pulmões por uma Fundição Progresso mergulhada na vibe emo carioca que Lucas jura ser “feliz”. Será mesmo?

No fim das contas, Carta de Adeus talvez seja menos sobre despedidas e mais sobre permanência. Em uma cena musical cada vez mais acelerada e descartável, a Fresno segue encontrando formas de transformar vulnerabilidade em identidade artística. E na Fundição Progresso, ficou claro que enquanto houver gente tentando sobreviver aos próprios sentimentos, essas músicas continuarão fazendo sentido.

Foto: Tadeu Goulart

SETLIST – Fresno – Fundição Progresso (23/05/26)

Set 1:

  • Eu não vou deixar você morrer
  • Carta de adeus (Bye Bye Tchau)
  • Tentar de novo e de novo
  • Sóbria
  • Pessoa
  • Logo agora que o meu mundo girou
  • Tudo que você quer
  • Se foi tão fácil
  • O cantor e o taxista
  • Eu não sei dizer não

Set 2:

  • Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas
  • Redenção / Porto Alegre / Diga, parte 2
  • Infinito / Deixa o tempo / Eu sei
  • Eu nunca fui embora
  • Manifesto
  • ELES ODEIAM GENTE COMO NÓS
  • sua alegria foi cancelada
  • Milonga
  • Evaporar / Eu sou a maré viva
  • CASA ASSOMBRADA
  • Quebre as correntes
  • Desde quando você se foi