No Meio da Roda: a experiência SPIM, trocas e celebração

Dez palcos, cinco dias e uma comunidade inteira em ebulição: o saldo da maratona sonora do SPIM

Bad Luv encerrando o SPIM Festival no Cine Joia | Foto por Matheus Lopes
Bad Luv no Cine Joia | Foto por Matheus Lopes (@mlopesz_)

O concreto de São Paulo absorve a eletricidade dos amplificadores e devolve em forma de vertigem, como uma espécie de propriedade mágica. Durante cinco dias ininterruptos, o festival SPIM (São Paulo Independent Music) funcionou como um choque desfibrilador no peito da metrópole. Enquanto o ecossistema digital tenta domesticar a experiência artística em doses assépticas, a ocupação provou que o verdadeiro pacto com o som só se sela no choque térmico entre o bafo quente da pista e o ar gélido da madrugada.

Em vez de concentrar tudo sob o conforto asséptico de uma única arena de megafestival, o evento fez o movimento inverso, jogando a cena de volta para as calçadas, espalhou palcos, amplificadores e corpos suados por dez endereços que sustentam a cultura independente nos outros 360 dias do ano. Foi uma verdadeira maratona de encontros, ressacas acumuladas e guitarras sem pudor.

No papel, a música que move os nossos dias tenta ser explicada por métricas e engajamento, mas quando as luzes apagam e o primeiro acorde quebra o silêncio de uma casa apertada em Pinheiros, no centro ou na Vila Madalena, o pacto volta a ser tribal. Estivemos No Meio da Roda durante esses cinco dias, e indo além de bastidores, apresentamos agora um resumo da experiência SPIM e suas celebrações. Vem com a gente!

No Meio da Roda – Crônicas da Pista

Quarta-feira: o peso das esquinas e a juventude em transe

Quem acha que a noite paulistana se alimenta apenas de nostalgia tomou um susto logo na abertura. O Bar Alto virou um liquidificador sonoro com o peso sujo do Molho Negro e a força visceral do Swave, mas foi a poucos metros dali, no Porta, que a coisa ganhou contorno de manifesto.

O ar já estava denso, cheirando a cerveja derramada e tabaco de bituca prensada na calçada quando a Julieta Social subiu ao palco. Ver o coletivo ao vivo é uma experiência desordenada no melhor sentido possível. As trocas constantes no aperto do palco davam a impressão de um ensaio aberto entre velhos cúmplices, mas a entrega lírica operava num nível muito mais profundo. O contraste entre a parede de ruído distorcida e os momentos suaves no arranjo provocou aquele tipo raro de transe em que ninguém na casa ousara olhar para a tela do celular.

A virada espiritual se concretizou com o encerramento do Ottopapi, destrinchando sua sonoridade singela com uma urgência esquisita e magnética que preparou o terreno sem pedir licença. Foi uma abertura sem plástico, sem firula de patrocinador e com a pulsação exata de quem sabe que a cena não precisa de pedestal, mas de chão firme para queimar.

Julieta Social no Porta | Foto por Matheus Lopes (@mlopesz_)

Quinta-feira: o interior avança e o hardcore não perdoa

Enquanto a La Iglesia tremia sob o peso sacal e quase religioso do Garage Fuzz e a eletricidade rasgada do Deb and the Mentals, a atmosfera na Casa Algo Hits operava em uma frequência totalmente diferente – mais úmida, densa e claustrofóbica. O espaço, que tem aquela mística “casinha” em trincheira de som, começou a esquentar cedo. A proximidade física ali é brutal: não existe separação real entre quem toca e quem assiste, o suor de quem está no palco respinga nos primeiros corpos colados na beirada.

Quem abriu os trabalhos foi a Chão de Taco, e o clima virou de vez para uma catarse sem freio logo nos primeiros minutos.

O ar já estava rarefeito e a temperatura da sala subiu de golpe quando a banda deu a primeira palhetada. Não teve aquecimento, nem afetação estética: o que se viu foi um expurgo coletivo. As letras, que no fone já soam como desabafos sem anestesia, ganharam contornos de sobrevivência no aperto da Algo Hits. Ver a galera da frente berrando cada verso com as veias do pescoço saltadas – como se aquelas frases fossem a única tábua de salvação da semana – foi de arrepiar a espinha. A dinâmica no palco era caótica e urgente, daquele tipo em que os músicos parecem tocar como se o mundo fosse acabar no compasso seguinte. Em momentos de ápice instrumental, a linha entre banda e público simplesmente se desfez: gente se apoiando nas caixas de som, copos equilibrados no parapeito e um coro ensurdecedor cobrindo os microfones.


Depois desse soco na boca do estômago, a Jonabug subiu ao palco para terminar de engolir o que restava de fôlego na casa.

Quando os cabos foram plugados, a sensação foi a de entrar em um túnel de vento supersônico. O som da banda não é contemplativo de fone de ouvido – ao vivo, é uma muralha física e intransponível de reverberação. Dava para sentir a vibração das frequências graves batendo direto na caixa antes mesmo da melodia vocal conseguir furar a barreira de ruído.

Uma tempestade sônica precisa, que colocou a plateia num estado de transe quase hipnótico, balançando a cabeça no mesmo compasso denso. A noite na Algo Hits foi o lembrete definitivo de que a experiência mais potente e acolhedora que existe é a música ao vivo. Saí respirando fumaça, com a camisa colada no corpo e os ouvidos apitando naquele tom agudo e reconfortante de quem acabou de presenciar algo real.

Sexta-feira: sobrevivência lírica e a celebração das pontes

A sexta-feira foi desenhada para quem não tem medo de encarar as próprias feridas no escuro. Enquanto a Casa Rockambole fervia sob a catarse quase religiosa do Ludovic ao lado do pós-punk afiado dos Jovens Ateus, e o Bar Alto celebrava o choque de eras entre os 20 anos de estrada do Garotas Suecas e a elegância da Turmallina, a experiência mais crua e desconcertante da noite estava escondida na Fenda 315.

Entrar na Fenda tem um peso de um refúgio clandestino: pouca iluminação rebatendo nas paredes e um silêncio tenso que pairava enquanto a sala enchia até o limite do desconforto.

Quando ana paia iniciou os trabalhos da noite, o ar congelou. Suas canções ao vivo funcionam como bisturis – cada verso confessional cortava a conversa paralela na base da rispidez lírica, sem filtros ou firulas vocais. Dava para ouvir o ranger das cordas da guitarra nos momentos em que a plateia inteira parecia prender a respiração junto. A entrega é tão desarmada e sem pose que você quase se sente culpado por estar ali ouvindo segredos tão íntimos, mas ninguém conseguia desviar os olhos do palco minúsculo.

Na sequência, a boasorte subiu para transformar essa vulnerabilidade em uma onda densa de som. O indie rock do grupo ao vivo ganha uma musculatura que as gravações de estúdio apenas insinuam, arrastada em camadas encorpadas e uma química em palco encantadora.

Quando os amplificadores finalmente calaram e a luz de serviço acendeu, ninguém tinha pressa de ir embora. Uma noite que ficou na mente de quem viveu, sem dúvidas.

Ana Paia na Fenda 315 | Foto por Matheus Lopes (@mlopesz_)

Sábado: a invasão das latitudes e o coro das frentes

Sábado foi dia de entender o tamanho do ecossistema desse universo tão vívido. Teve a psicodelia hipnótica dos Boogarins colidindo com a acidez dos Pelados na Casa Natura, a nova safra emocional de Esse Lado Pra Cima e glover tomando o FFFront de assalto, e no Hangar 110, o coro absoluto guiou Sugar Kane e Menores Atos numa aula de peso emotivo. Para fechar o mapa, o Porta colocou o Nordeste no centro da conversa com o instrumental ensolarado da Camarones Orquestra Guitarrística e a inventividade do Zepelim e o Sopro do Cão. Uma aula de descentralização e resistência.

Domingo: a apoteose no Cine Joia

Chegar ao Cine Joia no domingo já era um teste de resistência física. Quatro noites de asfalto, sono picado e zumbido nos ouvidos pesavam no corpo, mas bastou pisar na pista inclinada da Liberdade para a ressaca virar combustível. A arquitetura imponente do antigo cinema deu o tom de ritual de despedida que a SPIM merecia.

Quem puxou a largada foi a Chococorn and the Sugarcanes, espalhando emo caipira expansivo e melódico que parece feito sob medida para lugares altos. A resposta do público foi imediata: um respiro coletivo e luminoso, melodias que ecoavam nas paredes do mezanino, preparando o terreno antes do clima fechar de vez.

Quando Metade de Mim assumiu o palco, o ar mudou de densidade. Assistir ao grupo é como ter uma aula de peso emocional: a cozinha bate seco no peito, e os refrões confessionais foram cantados em uníssono por uma plateia que já não guardava mais nenhuma voz. Sem dar tempo para respirar, a Budang entrou chutando a porta com uma velocidade ensurdecedora.

O moshpit abriu no centro do Joia como um redemoinho: cotovelos voando, gente se empurrando no chão inclinado e uma energia punk crua, ácida e sem concessões. Foi o choque elétrico que faltava para arrancar os últimos resquícios de energia de quem achava que não aguentaria até o final.

A chave de ouro veio com a BAD LUV. O quarteto subiu com presença de arena, fundindo melodias chiclete, peso alternativo e uma atitude que dominou cada canto da casa. Quando o último acorde soou e os integrantes se jogaram na massa exausta, o sentimento não era apenas de fim de evento, mas de consagração.

Sair do Cine Joia na madrugada de domingo, encarando a garoa gelada e o silêncio da praça, deu aquela sensação clássica de pós-catarse: o corpo moído, a camisa ensopada e a certeza incontestável de que nada – absolutamente nada – substitui a verdade do som ao vivo na cara.

O Veredito da Calçada

Cinco dias inteiros de correria, de gargantas arranhadas, de roupas ensopadas de suor alheio e de encontros que só fazem sentido na beirada de um palco. A primeira edição da SPIM foi muito mais do que uma maratona de shows bem executados.

Enquanto o mundo lá fora insiste em nos transformar em números, dados e telas anestesiadas, ainda existem refúgios onde a nossa dor e a nossa alegria encontram eco no peito de quem está ao lado. A música independente nunca precisou de tapete vermelho ou de aprovação do topo das paradas para existir. Ela respira na coragem de quem carrega amplificador nas costas, na mão estendida que te levanta no meio da roda quando você cai, no abraço desajeitado entre estranhos que choram a mesma letra no escuro de um porão. É sobre pertencer a algo real, frágil e infinitamente bonito.

Encare o zumbido no ouvido desta semana como a cicatriz de uma experiência viva. O corpo volta para a rotina, mas a cabeça e o coração continuam lá atrás, no calor da pista.

O No Meio da Roda se despede por hoje com o peito cheio, mas a gente se vê na próxima esquina. O centro da roda sempre foi e sempre será o nosso lugar.