Joyce Manor encara a ressaca emocional e lapida sua identidade em novo álbum

Curto, direto e emocionalmente afiado, I Used to Go to This Bar revisita velhos fantasmas – vícios, memórias, rotinas que se repetem – com urgência juvenil e lucidez adulta, provando que envelhecer no emo não significa perder impacto

Capa: Epitaph Records

Existe um consenso quase folclórico em torno do Joyce Manor: eles não são banda de fazer disco longo. Tem sido assim desde o começo da carreira, e a banda construiu sua identidade a partir da concisão, com canções que entram sem pedir licença, dizem o que precisam dizer e saem antes que o sentimento presente ali esfrie. Never Hungover Again (2014) virou clássico justamente por isso: era um disco que parecia uma descarga emocional contínua, sem pausas desnecessárias. Ao longo dos anos, mesmo quando flertaram com produções um pouco mais polidas (Cody, Million Dollars to Kill Me), Barry Johnson e companhia nunca abandonaram essa ética do impacto imediato.

Reprodução / Instagram

Desde o início, o Joyce Manor filtrou angústia, vício, confusão emocional e frustração adulta através de melodias grudentas e estruturas simples. A diferença agora está na forma de narrar tudo isso, trazendo o ponto de vista de quem já passou por isso e ainda sente os efeitos.

I Used to Go to This Bar, lançado em 30 de janeiro pela Epitaph Records, chega como uma espécie de síntese madura desse percurso. Produzido por Brett Gurewitz (Bad Religion), o disco mantém a urgência punk que sempre definiu o Joyce Manor, mas incorpora novos “temperos” aqui e ali, mas sem distorcer os elementos que definem a banda.

Desde o início, o Joyce Manor filtrou angústia, vício, confusão emocional e frustração adulta através de melodias grudentas e estruturas simples. A diferença agora está na forma de narrar tudo isso, trazendo o ponto de vista de quem já passou por isso e ainda sente os efeitos.

Foto: Kat Nijmeddin

A temática que atravessa o álbum, do início ao fim, é clara: o desconforto de sentir coisas que, teoricamente, você já deveria ter superado. Lidar com recaídas, memórias e rotinas que insistem em se repetir. Em entrevista à Rolling Stone, a banda resumiu o processo de forma quase desarmante: “fazer o que sempre fizemos foi o que nos trouxe até aqui”. A frase poderia soar acomodada em mãos erradas, mas aqui funciona muito bem.

A abertura com o single “I Know Where Mark Chen Lives” estabelece muito bem, em menos de dois minutos, o tom de todo o disco: riffs grudentos, bateria em disparada e uma narrativa fragmentada que mistura um humor ácido e lembranças de hábitos autodestrutivos. É uma música que carrega um desconforto latente embalada com um refrão chiclete, como muitas das melhores canções da banda. Vibe de música que já nasce como um novo clássico. 

A faixa-título, “I Used to Go to This Bar”, funciona como o coração conceitual do disco. É uma música que canta sobre espaços que já não existem – ou que ainda existem, mas não nos cabem mais. Bares, rotinas, versões passadas de si mesmo. A letra simples e direta transforma todas essas experiências em algo quase universal, especialmente para um público que passou por momentos-chave da vida ouvindo a banda e que hoje ainda encara, vez ou outra, suas próprias ressacas emocionais.

“All My Friends Are So Depressed”, por sua vez, desacelera o ritmo e aposta em uma abordagem diferente, com guitarras limpas e um clima introspectivo. Um estilinho meio “emo caipira” que caiu muito bem depois das faixas anteriores. É um dos momentos em que a banda mostra que não está preso ao molde do punk acelerado o tempo todo. 

Em outro momento, Joyce Manor narra suas desventuras em série em “Well, Whatever It Was”. Dos dias que são tão trágicos que chegam a ser cômicos,a faixa captura aquele estado mental em que tudo parece dar errado em sequência. O acúmulo de pequenos fracassos se transforma em um retrato afiado da vida adulta vivida no piloto automático.

Mais para frente, à medida que o disco se aproxima do fim, “Well Don’t It Seem Like You’ve Been Here Before?” muda um pouco o tom e surge quase como uma pergunta retórica e agridoce dirigida ao próprio ouvinte. A sensação de repetição, de dias que se confundem, de sentimentos que te levam numa viagem à situações já vividas antes, ecoando não só na letra, mas na forma como a música parece girar em torno de si mesma. 

Essa melancolia se estende ao encerramento com “Grey Guitar”, um dos momentos mais fortes do álbum. Melodicamente cativante desde o primeiro momento e liricamente devastadora, a faixa fala sobre memória, perda e a tendência humana de usar distrações como fuga.

No geral, I Used to Go to This Bar não reinventa o Joyce Manor – e isso é justamente o que o torna tão potente. Sem rodeiros e em menos de 20 minutos, o trabalho reflete, com honestidade, sobre crescer e nem sempre conseguir se desprender por total do que um dia fez sentido. Por fim, o disco aposta na lapidação de uma linguagem que o grupo domina há mais de uma década e reafirma por que a banda continua relevante dentro de seu nicho, entendendo seu público e respeitando sua própria história.