Tigers Jaw voltam após cinco anos com Lost On You
Sétimo álbum da banda chega pela Hopeless Records com arranjos mais maduros, vocais impecáveis e uma meditação profunda sobre o que significa existir em todos os seus eus ao mesmo tempo

Há bandas que envelhecem. Há bandas que crescem. Tigers Jaw pertence à segunda categoria. Formada em Scranton, Pensilvânia, por amigos de escola que nunca abandonaram o hábito de transformar angústia em canção, a banda chegou ao seu sétimo álbum, Lost On You, lançado na última sexta-feira de março pela Hopeless Records, carregando duas décadas de trajetória sem o peso de quem está tentando provar algo. O resultado é um disco que soa simultaneamente como um ponto de chegada e como um recomeço.

A progressão de uma discografia
Para entender o que Lost On You representa, é preciso recuar um pouco. A discografia do Tigers Jaw se construiu de degrau em degrau: álbuns como Two Worlds e Charmer mantiveram a energia concentrada do disco autointitulado enquanto avançavam em direção a um som mais refinado, ainda bruto e aberto, mas com maior maturidade vocal e identidade sonora mais definida. O álbum anterior, I Won’t Care How You Remember Me (2021), seguiu essa lógica ao tentar capturar a energia febril dos shows ao vivo. Essa herança energética se projeta em Lost On You, especialmente no single de abertura “Head Is Like A Sinking Stone”.
O novo disco, portanto, não representa uma ruptura, mas sim uma síntese. Lost On You mescla o caos acústico e as vozes duplas dos primeiros trabalhos com a qualidade de produção e o refinamento artístico dos projetos mais recentes, resultando em um dos álbuns mais brilhantes da carreira da banda.
O tempo como tema central
O Tigers Jaw faz álbuns como professores universitários de literatura: Lost On You é um trabalho cuidadosamente arquitetado, construído em camadas de esperança, dor, anseio e aprendizado. A banda mostra em vez de dizer, convidando o ouvinte a escavar significados por conta própria.
O tema que atravessa o disco inteiro é o tempo: não como linha reta, mas como acumulação. A banda explora a possibilidade profunda de que existimos em todas as versões de nós mesmos ao mesmo tempo, não apenas quem somos hoje, mas uma acumulação viva de nossos eus passados, presentes e futuros. Lost On You funciona como uma ponte temática onde essas diferentes identidades finalmente se encontram e conversam.
É um disco feito por pessoas que sabem que não podem voltar atrás e não fingem o contrário. O que ressoa ao longo de cada faixa é a dor de tentar resgatar o passado que escorrega, que se afasta mesmo quando perseguido.
Produção e sonoridade
O álbum foi gravado novamente com o produtor Will Yip, nome responsável por trabalhos de Turnstile e Title Fight, e a assinatura sonora da parceria está impregnada em cada faixa. O resultado se instala confortavelmente entre o calor do power pop e a precisão do indie rock, e se esse equilíbrio é, em alguns momentos, sua limitação, é também, com muito mais frequência, onde reside sua maior força.

O álbum abre com “It’s Ok”: guitarra de bobina singela e vocais reverberados de Ben Walsh constroem uma espécie de manifesto lo-fi, com um encerramento inesperado de piano que redefine o tom do que está por vir. Em seguida, “Primary Colors” entrega os vocais a Brianna Collins na primeira estrofe, com Walsh retornando na segunda. A técnica clássica da banda funcionando com precisão cirúrgica. “Head Is Like A Sinking Stone” chega com uma intro devastadora de oitavas de guitarra recortadas e um refrão que Walsh e Collins entregam com uma qualidade vocal raramente vista.
A segunda metade do disco é onde a banda arrisca mais. “Anxious Blade” zumbe com guitarras limpas que remetem ao melhor do Thursday, enquanto “BREEZER” acelera o ritmo com riffs pontiagudos e solos à la Brian May acompanhando Collins. “Ghost” vira a mesa de direção rítmica, sendo um dos momentos mais divertidos do disco. “Staring At Empty Faces” aperta as guitarras em espirais e reverb com um groove que se destaca.
O diferencial: as vozes duplas
Se há um elemento que eleva Lost On You acima de qualquer comparação imediata, é o tratamento dado às vozes de Walsh e Collins. O disco traz esse aspecto mais do que qualquer trabalho anterior da banda, mostrando a versatilidade do grupo ao utilizar as duas vozes independentemente e em conjunto ao longo das faixas. A compatibilidade entre elas é inigualável. Lost On You oferece três formas de absorver o conteúdo lírico: como um diálogo entre duas pessoas, como um monólogo interior de cada vocalista separadamente, e como um estado mental coletivo que, quando as duas vozes se unem, soa ao mesmo tempo frágil e poderosamente verdadeiro.
O fechamento perfeito
A faixa-título encerra o disco com a grandiosidade que o restante do álbum foi cuidadosamente acumulando. A música constrói pacientemente, sobrepondo instrumentos e vozes até que o refrão final chegue com uma plenitude que o álbum inteiro esteve deliberadamente contendo. Vinte anos depois, Lost On You soa como um disco feito por pessoas que sabem exatamente o que fazem bem e, crucialmente, quando deixam espaço para que isso respire. A faixa reúne todas as facetas do álbum: nostalgia, ansiedade, a sensação de estar perdido no mundo, a passagem do tempo e como tudo isso se acumula no momento presente
Cinco anos de espera, e o disco que chegou é exatamente aquele que precisava existir.
