Virando a ampulheta: O esperado retorno do Alesana ao Brasil

Banda se apresentou no último sábado (27) em São Paulo

Foto: Day Mello / Downstage

Texto por Bruno Avilar

O saudosismo é um sentimento que se instaura de forma particular em cada um. Com o passar do tempo, nós nos voltamos para nossas experiências com um olhar pensativo, num misto de carinho e pesar. Mas como diz a expressão que entrou em voga na internet, nenhuma experiência é individual, e coletivamente a nostalgia deixa o ar melancólico e se torna uma celebração.

Já no caso da arte, a nostalgia é uma faca de dois gumes. É um momento de valorização da obra de um artista, o que se traduz em lucro fácil. Por outro lado, o sentimento traz uma série de desafios. Ele pode relegar o artista a uma época e obra específicas, além de se tornar uma expectativa tanto mental quanto física — o tempo não sensibiliza somente nossas mentes, mas também nossos corpos. A performance no presente fará jus ao passado? 

Foto: Day Mello / Downstage

Diante dessa questão, o Alesana embarcou em sua turnê pela América Latina, após 14 anos desde sua última passagem ao Brasil — e adianto que tiraram a questão de letra no palco.

O sexteto estadunidense foi formado em 2004, e rapidamente despontou como um dos expoentes do post-hardcore dessa época. Seu primeiro LP, On Frail Wings of Vanity and Wax (2006), foi um dos destaques em sites da época como MySpace e PureVolume, e em 2007 já rendia a primeira passagem da banda por terras brasileiras. 
Já em 2008 a banda retornaria ao país em turnê com seu segundo disco, Where Myth Fades to Legend, iniciando sua parceria com a produtora Liberation, que trouxe a banda novamente em 2010 e também agora neste retorno ao palco do Carioca Club em São Paulo, reunindo uma legião de fãs saudosos. Nessa noite de 27 de abril, a abertura ficou por conta das bandas There’s No Face e Sea Smile, ambas representantes do metalcore paulista.

Foto: Day Mello / Downstage

Ambas as bandas já apresentavam uma parcela de fãs no público, iniciando bem a noite. Todas as apresentações foram pontuais. Na chegada da atração principal, a trilha de Space Jam, usada como tema de entrada da banda, já dava o clima de festa que duraria pela noite. 

Seria um risco para muitas bandas do estilo já começarem o show gastando seus hits, mas o acúmulo de sons marcantes do Alesana deu folga para que o set já fosse iniciado com “Ambrosia” e “Beautiful in Blue”, uma faixa emblemática do disco On Frail Wings of Vanity and Wax (2006) e a outra do EP de estreia Try This With Your Eyes Closed (2005).

Foto: Day Mello / Downstage

Os destaques no setlist foram muitos. Para os mosheiros? “The Murderer”. Pra cantar junto? “This Conversation Is Over” e “Seduction”, entre outras. Houve um breve momento para respirar em “Oh, How the Mighty Have Fallen”, faixa de seu álbum mais recente (Confessions, 2015), que perdeu destaque entre tantos sons mais queridos que foram tocados, mesmo com a pegada mais agressiva. No geral, ninguém ficou parado, nem calado, com cada música sendo cantada a plenos pulmões por um público que encheu o Carioca Club e desafiou o som da casa até o final do set.

Quem via os vídeos das primeiras passagens do Alesana pelo Brasil, filmados pela saudosa LBViDZ (e usados sabiamente pela Liberation na chamada para o evento), via uma banda jovem que tocava cada nota como se elas estivessem em fuga. Hoje vemos uma banda experiente e com a mesma energia, porém com total controle dinâmico, fator que sempre foi o grande atrativo em suas composições. As faixas que gastaram inúmeros fones de banquinha e players de mp3 na década retrasada ganharam vida nova no palco, inclusive com desaceleradas no ritmo de presente para a turma do mosh, numerosa e que não parava quieta. Naquele mar de sorrisos e euforia, o final de “A Lunatic’s Lament” ganhou o tom de um irônico metacomentário (“are you satisfied?”). 

Foto: Day Mello / Downstage

Mais adiante, no último som, até mesmo o baixista Shane Crump apareceu de surpresa no meio da roda, sendo carregado no único crowd surf da noite. A interação bem-humorada de Dennis Lee com a plateia também se destacou, com direito ao vocalista ganhando boosters do jogo de cartas Magic: The Gathering no palco e saudando os fãs nerds presentes.

Ao fim da noite, a energia gasta por banda e público foi tanta que o setlist, que outrora parecia curto perante a discografia, se mostrou feito na medida certa. Graças ao horário bem delineado do evento, o show se encerrou num horário propício para a volta pra casa. O mar de euforia se escoava, mas os sorrisos permaneceram, como em todo bom reencontro.

Setlist:

  1. Icarus/Ambrosia
  2. Beautiful in Blue
  3. The Murderer
  4. Hand in Hand With the Damned
  5. Red and Dying Evening
  6. Seduction
  7. This Conversation Is Over
  8. The Thespian
  9. A Lunatic’s Lament
  10. Oh, How the Mighty Have Fallen
  11. Circle VII: Sins of the Lion
  12. Lullaby of the Crucified
  13. Annabel

Encore:

  1. When I Come Around (trecho) (Green Day)/Curse of the Virgin Canvas
  2. Congratulations, I Hate You
  3. Apology